Censura, não, de novo não!!!

10/08 – 16:30 h, algumas coisas não deveriam surpreender e, no entanto, nos causam espanto; vamos ao que interessa.

A justiça Federal em Minas, por solicitação da Procuradoria da República (alto nível), proibiu a exibição nos cinemas brasileiros o filme de ficção A Serbian Film – Terror sem Limites. Este filme já estava proibido no RJ, por solicitação do partido DEM, mas tinha estréia programada para o dia 26 no restante do país.

Pasmem, sacramentaram a censura.

Não vou discutir o filme em si, este não é o mérito. O que me parece absolutamente fora de propósito (e realmente é um absurdo) é determinarem o que podemos ou não ver.

Eu, se me fosse dada a prerrogativa de censurar, por certo não o faria com um filme.

Vejamos; censuraria algumas coisas que me incomodam de fato, que acredito realmente causarem repulsa, indignação, mal estar, ou qualquer outro sentimento que me remeta a desconforto.

Censuraria ver, por exemplo: o descaso do estado com os seus contribuintes (mas que não diminui a sede voraz com que nos tributa e nos justiça quando somos devedores); a criminalidade que assola este país e parece ganhar cada vez mais terreno, colocando-nos reféns em nossos lares; a miséria que ainda relega milhares a condições subumanas; a ignorância tão necessária para manter a corrupção ativa no poder; a assistência social (ou a falta dela) que opera no limite do improvável e muitas vezes não consegue agendar atendimento em tempo hábil para salvar vidas; o ufanismo imbecil e o bairrismo escatológico que não levam a nada; a homofobia ou qualquer tipo de segregação típica de pessoas desprovidas de qualquer senso moral; a violência contra as mulheres, ainda tolerada pela nossa sociedade, com a impunidade ao agressor e conivência de quem mora ao seu lado; a justiça (essa mesma que agora proíbe filmes, mas que comete muito mais erros crassos (ou menos acertos)), que faz vistas grossas e têm, em cabeças retrógradas, interpretações dúbio-equivocadas sobre e/ou a respeito de uma mesma lei (aqui um clichê famoso; um peso, duas medidas – sim, esse é o termo correto, ou pelo menos o utilizado por Sócrates); as leis que nem sempre pendem para os inocentes e fracos (os poderosos agradecem); a falta de educação ou a educação que privilegia a lei de Gérson; o ensino deficiente que põem nas ruas todo ano milhares de formandos incapazes, mas diplomados, que por sua vez formarão outros milhares ainda mais ignorantes; a tolerância, a malemolência desse povo que prefere criticar o alheio e não se importa com o escárnio, com a falta de caráter, com o pudor em querer levar vantagem sempre, antes de qualquer um.

Censuraria a politicagem que arbitra a seu próprio favor e relega o povo ao assistencialismo, garantindo assim a permanência no poder (dar para receber, mas dão bem pouco, muito pouco).

Estes senhores, que ao invés de fazer aquilo para o qual foram eleitos, se apressam em aumentar os seus vencimentos, e processam todos aqueles que são contrários aos seus desmandos (subtração do erário ficaria melhor) – vide Tonho Crocco.

Censuraria a falta de vergonha do nosso povo sem brio, que permite todas estas ignomínias e não é capaz de levantar-se para fazer oposição e cobrar o seu direito respaldado em constituição, mas que canta com ardor e mão no peito que é brasileiro e tem muito orgulho.

Infelizmente eu apenas posso apontar. E você, o que pode fazer?

Saudade…

Saudade…

 

“… chegou de repente o fim da viagem

agora já não dá mais pra voltar atrás…”

 

 

E por falar em saudade… é, Vinícius sabia muito. Este ano, se estivesse entre nós, Elis Regina completaria 61 anos. Não sou historiador e, tão pouco, crítico  musical. Gosto de música, boa música. As pessoas que me conhecem (e são poucas) sabem que tenho um gosto um tanto apurado e não escuto qualquer coisa. Felizmente. 

Dentre todas as intérpretes de que gosto, ouvir Elis é sempre um prazer renovado. Sua voz límpida, segura, incomparável. Ouvir Elis.

Não cabe, pois, comentar sobre a sua carreira interrompida estupidamente e, muito menos, determinar o seu lugar – para sempre vago – no cenário musical.  Dona de um temperamento controverso, que sempre a deixava em evidência, não raro, atraía para si comentários desfavoráveis a sua postura fora de palco. Boa parte de seus conterrâneos, jamais a perdoou, por não levar consigo o bairrismo, tão comum e exacerbado de nossa gente. Tudo porque não tinha fronteira nem “papas na língua”. Sua determinação e garra superavam, muito, a sua baixa estatura. Isto, no entanto, jamais se evidenciava. De personalidade forte, Elis sempre buscou estar à frente do seu tempo. Não era apenas uma intérprete. Tinha de sobra qualidades. Sua voz era – e é – um caminho que conduzia o prazer de se ter os ouvidos acarinhados.

Muitos músicos por ela foram pinçados, sua capacidade para lançar novos talentos era inconteste. Elis colocou em evidência músicos importantes da MPB. Milton, João Bosco, Chico Buarque, Belchior, entre outros tantos, tiveram na sua voz o reconhecimento da crítica especializada. Suas interpretações são magníficas. Não conheço, quem, em sã consciência consegue ouvir Atrás da Porta, interpretado por ela, sem que suspire profundamente, a perda de um amor, pasmem, que nem nosso é devido. É de chorar no cantinho. A dor pungente do adeus, é sentida em toda sua intensidade. Bolero de Satã, do fabuloso dentista/compositor e mestre Guinga e de seu parceiro e de outros tantos, o inigualável, Paulo César Pinheiro, é resumida em uma simples palavra: linda. Acumulava trabalhos antológicos, Tom & Elis, Transversal do Tempo, Elis, essa Mulher, Elis e outros, Elis Regina Falso Brilhante, Elis – Luz das estrelas, etc. Uma discografia irrepreensível. Se minha vida fosse musicada, parte dela teria a voz de Elis ao fundo. Há 24 anos vivemos de saudades. A alegria ao cantar Upa Neguinho, a irreverência na música de Adoniran Barbosa, a tristeza, o sofrer, presente em outras tantas canções “ilustradas” pela sua voz fantástica deixaram marcas indeléveis em pessoas que como eu, ainda a ouvem com reverência e tesão.

“… e agora me aperta a aflição

de chorar louco e só de manhã

é a seta do arco da noite

sangrando-me agora

são lágrimas, sangue, veneno

correndo no meu coração

formando-me dentro este pântano de solidão…”