Quente. Assim era seu banho, muito quente. Causava-me espanto como aquela água não lhe queimava a pele alva. Ria embaixo do chuveiro escaldante, enquanto olhava pra mim. Tinha um sorriso lindo, maravilhoso, tipo capa de revista. Divertia-se porque não conseguia tomar banho com ela. Apenas não suportava a água quente, não naquela temperatura. Ela sabia e ria.
Gostava de festas, eu sempre fora avesso a gente. Um gosto por vezes estranho para música, dizia que gostava das coisas que eu ouvia; bem poucas, quase nada. Gostava de cinema, eu também. Vazio. Éramos o oposto, nem sei o que viu em mim, porém sei o que via nela.
Quente, é como tomo meu banho agora, a diferença é que sinto frio, um frio da ausência dela, um frio que enregela a alma, um frio que não me abandona, um frio de dor, de uma saudade infinda, um frio embaixo de uma água quente.
É, estou velho num banho quente, e a cada vez sinto mais frio.

