Inquietações – by me

Sinto um aperto no peito
Misto de sofrer, paixão
Antes fogo agora água
E nem sempre é calmaria.

Há tormentas, tempestades
Incertezas, solidão
A saudade, um desejo
O sabor daquele beijo
E que agora já não há
Que não é de ninguém…
De quem o será…

Um farol que incandescia
Hoje é vela, chama branda
Queimando o oxigênio
Extinguindo a própria luz
Numa noite
Vazia.
Num dia de sol.

Saudade…

Saudade…

 

“… chegou de repente o fim da viagem

agora já não dá mais pra voltar atrás…”

 

 

E por falar em saudade… é, Vinícius sabia muito. Este ano, se estivesse entre nós, Elis Regina completaria 61 anos. Não sou historiador e, tão pouco, crítico  musical. Gosto de música, boa música. As pessoas que me conhecem (e são poucas) sabem que tenho um gosto um tanto apurado e não escuto qualquer coisa. Felizmente. 

Dentre todas as intérpretes de que gosto, ouvir Elis é sempre um prazer renovado. Sua voz límpida, segura, incomparável. Ouvir Elis.

Não cabe, pois, comentar sobre a sua carreira interrompida estupidamente e, muito menos, determinar o seu lugar – para sempre vago – no cenário musical.  Dona de um temperamento controverso, que sempre a deixava em evidência, não raro, atraía para si comentários desfavoráveis a sua postura fora de palco. Boa parte de seus conterrâneos, jamais a perdoou, por não levar consigo o bairrismo, tão comum e exacerbado de nossa gente. Tudo porque não tinha fronteira nem “papas na língua”. Sua determinação e garra superavam, muito, a sua baixa estatura. Isto, no entanto, jamais se evidenciava. De personalidade forte, Elis sempre buscou estar à frente do seu tempo. Não era apenas uma intérprete. Tinha de sobra qualidades. Sua voz era – e é – um caminho que conduzia o prazer de se ter os ouvidos acarinhados.

Muitos músicos por ela foram pinçados, sua capacidade para lançar novos talentos era inconteste. Elis colocou em evidência músicos importantes da MPB. Milton, João Bosco, Chico Buarque, Belchior, entre outros tantos, tiveram na sua voz o reconhecimento da crítica especializada. Suas interpretações são magníficas. Não conheço, quem, em sã consciência consegue ouvir Atrás da Porta, interpretado por ela, sem que suspire profundamente, a perda de um amor, pasmem, que nem nosso é devido. É de chorar no cantinho. A dor pungente do adeus, é sentida em toda sua intensidade. Bolero de Satã, do fabuloso dentista/compositor e mestre Guinga e de seu parceiro e de outros tantos, o inigualável, Paulo César Pinheiro, é resumida em uma simples palavra: linda. Acumulava trabalhos antológicos, Tom & Elis, Transversal do Tempo, Elis, essa Mulher, Elis e outros, Elis Regina Falso Brilhante, Elis – Luz das estrelas, etc. Uma discografia irrepreensível. Se minha vida fosse musicada, parte dela teria a voz de Elis ao fundo. Há 24 anos vivemos de saudades. A alegria ao cantar Upa Neguinho, a irreverência na música de Adoniran Barbosa, a tristeza, o sofrer, presente em outras tantas canções “ilustradas” pela sua voz fantástica deixaram marcas indeléveis em pessoas que como eu, ainda a ouvem com reverência e tesão.

“… e agora me aperta a aflição

de chorar louco e só de manhã

é a seta do arco da noite

sangrando-me agora

são lágrimas, sangue, veneno

correndo no meu coração

formando-me dentro este pântano de solidão…”