Think about it

Saco_cheio

Se eles longe de política estão assim, imaginem eu!

21/08 – 04h12min h, acabei de assistir um filme chamado The Imitation Game, 2014. Sobre o filme é desnecessário comentar, até porque não sou crítico de cinema, citei-o apenas para introduzir mais um textículo.

Deveria a esta hora estar dormindo. Não é bom para minha saúde à ausência de sono ou que ele seja irregular, quem sabe algumas linhas aqui e me dou por vencido.

Nos dois últimos anos praticamente não escrevi. A idade avança e a necessidade de finalizar as coisas acaba por não fomentar pensares. Não raras vezes abri o editor de texto e não produzi coisa alguma. Aliás, tenho um monte de coisa alguma salvo no computador. Já falei sobre isto não faz muito. Algumas linhas, a promessa de outra hora terminar o que comecei e…

Mas o filme que não ouso falar porque não sou crítico me fez pensar e, por este motivo e também pela falta de sono, eis-me aqui. A redundância é sensacional, né não?

Uél, das coisas que me ocorreram é que tenho escrito em geral sobre coisas que me desagradam. Não é intencional, é que tem tanta merda neste mundo que é fácil discorrer sobre isto. Mas cansa.

O momento atual neste país é: eu sou. E este é um dos problemas, nesse caso deveria ser: nós somos, seremos? Ãh!!!

Impressiona como o país está dividido. Remete aos tempos em que apenas dois partidos – o bipartidarismo – disputavam cargos, um defendia o militarismo (ARENA) e o outro era oposição (MDB). E na repetição da história (aquela que diz que de vinte em vinte anos aparece no mundo uma nova geração) veio à inversão. E a inversão it’s not good! Com ela ainda veio o ódio, sim nós nos odiamos. Mais que isto, além de partidários, somos prós e contras qualquer coisa que não se enquadre no “politicamente correto”, um porre.

O PT (lá vou eu escrever sobre algo que não me agrada) depois de longa data provou ser tão nefasto para o país quanto os demais partidos. E ainda tem neguinho (branquinho também) defendendo corruptos e corruptores, e o fazem jurando de pés juntos que o partido operou o milagre de tirar da linha de miséria os brasileirinhos e brasileirinhas, os mesmos que aparecem em tudo o que é discurso oportunista há mais de década. E o país do “nunca antes na ixtória” já chega a 12 milhões de desempregados, menos mal que não são mais miseráveis, apenas desempregados.

Já à direita, que nos idos anos sessenta era oposição, também é composta da mesma farinha, o popular: mesma bosta. E ambos nos mantém cativos, perpetuando-se no poder e escravizando o povo com as altas taxas de impostos e a incapacidade de gerir a nação. Mais do que isto; conseguem a façanha de fazer o povo defende-los. Miracle!

Não (incrédulo!!!) c já parou pra pensar??? Branquinho (neguinho também) te atolando o rabo e você defendendo-lhe com a mão no peito, com muito orgulho, com muito am…  e… e vá pro diabo que o carregue.

Senão então vejamos: os milisimpatizantes, da esquerda caviar, querem manter o poder corrompido acusando a direita burguesa de falcatruas históricas.

Os narcoxinhas da direita por sua vez, tentam desfazer o mito de que o PT era o partido dos pobrinhos, já que a sua cúpula toda enriqueceu, fizeram do populismo plataforma de governo, e tal qual Robin Hood, tiraram dos ricos e antes de dar somente aos pobres, enriqueceram. Espraiaram esmolas e com isto ganharam o amor eterno e incondicional daqueles que no PT viram a realização de um sonho, um governo do povo, pelo povo e para o povo. Só que não.

Enfim, resta a briga imbecil, de um povo burro que defende apenas maus políticos, e o pior: de graça. Donde se concluí que a nossa orientação sequiçual é a de um povo masoquista. Ui!!

Pois meus filhos esta gentalha toda (aí acima) fez da rede social um lugar para se lavar roupa suja. É, e dizer que um dia sentiria falta do tempo em que mulheres faziam amizades com esmaltes craquelê.

Se há solução para isto? Certamente que há e de tão simples é extremamente complexa. Hein??!! Como??!!! Calma, explico: é necessário apenas que este povo entenda que o político deve exercer o seu cargo em prol do bem comum (NÓS) e não em benefício próprio (ELES). E aqui esta uma das coisas que não entendo todo mundo vê todo mundo sabe, mas ninguém faz absolutamente nada. Acho que ainda estamos na fase do ah é, é!! Eu já cansei disto.

Não temos que ficar discutindo entre nós, defendendo regimes de governo que não deram certo na história e nunca darão, está provado que quem governa aqui enriquece. Político aqui é status social, casta, classe, haja vista o que percebem para “lutar” por nós. Quem não quer lutar assim? Não sei vocês, mas um leão de chácara é bem mais em conta e se não fizer o serviço direito, pé na bunda. Aqui para dar um pé na bunda de um mau político é deveras complicado. Junto com eles há também todo um sistema chamado máquina administrativa que depende dos maus políticos, ou seja, o que nos sobra, extraído de nós, reverte em muito pouco, quase nada.

Tampouco devemos digladiar militando em prol de maus políticos que pelo “bem” do país cortam verbas necessárias ao desenvolvimento e melhorias em geral, e que, no entanto, na calada da noite, sem escrúpulo algum, votam aumento em seus vencimentos e dos seus. O custo Brasil é muito caro para continuarmos bancando estes parasitas.

06h32min, o sono vem chegando, devagar, como eu. Ventam fortes rajadas e pior que isto, não era nada disto o que queria escrever. Se por um lado é ruim, por outro já tenho ideias para desenvolver outro textículo. O tempo não para, saudade do que fica para trás.

Do saudoso Ibrahim Sued “Ademã que eu vou em frente”!

Ah sim, se não viram o filme vale muito a pena.

Já fiz muita coisa errada, já pedi ajuda…

Dos pais

O que escrevo a seguir é de certa forma um resgate de parte de minha vida, uma parte insignificante uma vez que tive pouca convivência com meu pai. Dedico este texto para aqueles que também não tiveram pais presentes em suas vidas, para que não tenham dúvidas de que a rejeição sofrida não significa nada, quem realmente perdeu foi quem não os quis como filhos.

Não recordo se já escrevi algo sobre este dia, provavelmente sim, pelo menos um “hai quase cai”©, porém, neste sábado que o antecede, ao ver uma apresentação do meu neto e seus coleguinhas, achei que deveria registrar neste texto minhas impressões, para que no futuro ele saiba que mesmo não tendo tido alguém para chamar de pai, teve e tem muito amor de todos aqueles que vivem com ele, eu inclusive.

Ano passado ele não quis participar, não tinha a quem homenagear. Na ocasião, com apenas quatro anos, fiquei surpreso com a sua decisão, já que manifestava constrangimento em não estar homenageando aquele que deveria ser presença constante em sua vida. Acreditei que por ser criança faria, não daria a devida importância. Errei ao subestimá-lo.

Pela manhã eu, meu neto e minha filha, fomos na escola onde ele estuda. Estava agendada uma homenagem para os pais. Lá, juntou-se a nós meu filho mais velho. Ele agora também é pai e amanhã comemorará este dia pela primeira vez.

Houve duas outras turmas antes de sua apresentação. As crianças cantaram canções preparadas para homenagear seus pais. As letras versavam coisas bonitas, enalteciam os pais com características próprias, nem sempre reais, extremamente piegas. Sentimental que sou aquilo me pegou de cheio.

Já me sentia triste na apresentação ensaiada – música e coreografia – em que participou. Próximo do palco filmei-o. Reparei que parecia um pouco distante, estava ali por estar, cantava dispersamente, sequer executou a coreografia. Claro que com cinco anos e meio é perdoável que esteja disperso; pelo que sei, ele é o mais novo entre os coleguinhas, mas ao estar ali no palco, se apresentando para quem nunca esteve presente em sua vida, e cantar uma música que não significa nada para ele, por certo não é motivo de espanto, quem sabe o que se passava em sua cabeça naquele momento.

Ao final, disse aos meus filhos que iria ao mercado comprar um lanche para ele, pois ainda haveria atividades em que as crianças participariam acompanhadas de seus pais. Foi o momento que precisei para recompor-me. Ao voltar, encontrei-o vibrando ao lado de uma quadra onde pais e filhos jogavam voleibol. E novamente lamentei que ele não tivesse um pai.

Tirei-o dali, sugeri que fizéssemos outras coisas onde poderíamos participar e no resto da manhã conseguimos nos divertir muito, e isto de certa forma deixou a minha tristeza de lado, meu neto não merecia que eu estragasse aqueles instantes de felicidade.

Ele é uma criança feliz, a ausência do pai em sua vida hoje só faz falta em ocasiões pontuais, naquelas em que seus colegas estão com os seus, do contrário, ele sequer fala a respeito.

Se depender de mim e de todos aqueles que convivem com ele, jamais deixaremos que lamente quem nunca lhe assistiu, pois o amamos como a um filho.

Nunca te faltará amor, carinho, compreensão. Nunca faltarão super-heróis em tua vida: a tua mãe, tios, eu (vô e enferrujado que sou), tua vó (sua também segunda mãe) e, ainda que faltássemos todos, terias outros familiares que também te amam. Nunca deixaremos de acrescentar as coisas que teu pai deveria ter feito. Você Antônio, não é uma criança rejeitada, quem perdeu de fato foi aquele que não te criou como filho. Não lamente por quem não te ama, não vale a pena.

Dedico este texto ao meu neto Antônio Kloss Hypólito, e espero que um dia ele possa entender que tentamos da melhor maneira possível compensar a ausência daquele que contribuiu apenas fisicamente para o seu existir. O amor que lhe dedicamos há de tornar a sua vida suportável e desejo, meu neto, que sinceramente que nunca venhas a lamentar, creia você tem pais demais.

Ao meu neto, aos filhos que não tem um pai presente, que possa ser referência em suas vidas, que não tenham dúvidas, vocês são muito importantes para todos aqueles que os amam. Mais importante que isto, ame muito a sua mãe. Mães são seres iluminados que tem amor de sobra para suprir a ausência daqueles que não os reconhecem como filhos.

Aos meus filhos Bruno pai do Benício, Rubem e Luciana, mãe do Antônio, as minhas sinceras desculpas pelos descuidos eventuais, eu os amo.

A linda menina Marina Vieira, que tive o privilégio de conhecer e a qual gosto muito, saudades, beijo grande.

Não somos super-homens, não somos infalíveis, temos inúmeros defeitos, mas pais de verdade estão e estarão sempre ao seu lado.

Quem ama não abandona, seja quem for, jamais.,

Nada será como antes, AVA.

Eu sei… – by me

Armdesf

Desenho as linhas do teu rosto
com os olhos rasos d’água

Embaçam sentimentos
das lembranças passadas
e um futuro vazio

Sombrio

Nos teus olhos
revejo o encanto
imagem efervescente
como a vida que eu tive
mas que na realidade
não será mais
felicidade

Pensei que havia perdido
– até vê-los novamente –
a capacidade de chorar

Menos mal
imagens virtuais
não borram

Eu realmente sei…

Daquilo que não foi

The-bird2


Tem tempo que não escrevo, mas tento. Tanto que devo ter alguns textículos iniciados com uma mesma frase ou com outras semelhantes, um ensaio para o tudo que termina invariavelmente em nada. Acaba que a coisa não desenvolve e então se somam inícios sem fins. Se me serve de alento não é papel que acumulo, apenas lixo digital.

Nesse meio tempo reparei que não só eu deixei de produzir, outros blogueiros que acompanho também padecem de produtividade, pode ser que a palavra ande escassa, difícil, complicada, pode ser que seja uma desculpa para minha incapacidade, isto acontece. Para corroborar ainda mais este mal estar, eu que nunca procurei por reconhecimento, e só queria um registro do meu pensar, não tenho a quem justificar se nunca mais voltasse a escrever, o que deixa o cérebro mais preguiçoso ainda. A falta de obrigação embota o sentimento, e sem ele, não se cria.

Lembro que quando me propus a fazer isto, era apenas para expurgar coisas que habitavam meus pensamentos e que de certa forma ocupavam – ainda ocupam – um espaço que presumi ficar livre caso precisasse um dia utilizá-lo, tipo um HD de pouca capacidade de armazenamento. Um cérebro obsoleto, mas ávido por novos upgrades.

Uél, não rolou, em outras palavras, minhas memórias ainda ocupam um espaço significativo em minha cabeça. Talvez isto dificulte expressar-me melhor. Ok, não é tão ruim assim, acho que levo tudo zipado, tamanha capacidade de memórias que tenho.

Por outro lado tenho o blog e ele é fruto disto, pois se ela falhar um dia, e se não me for antes, poderei reler aqui algumas coisas que marcaram minha vida, e… bem, talvez me reconheça nelas e quem sabe também me lembre de você.

Pode ser que não lembre que eu sou, mas duvido que me esqueça quem ela é. AVA, enjoy!

Respeito

Se faltar respeito, de um F5, tudo o que não desejo é que lhe falte isto.


Acordei de manhã com um texto pronto, ou melhor, era o que achava. Nos meus pensamentos turvos, bastava apenas editá-lo, um retoque talvez. Era produto de um sonho, meus sonhos são uma zona, dá para imaginar como estava satisfeito com a coerência e a narrativa, bastava somente transcrevê-lo.

Aí, pensei, ainda meio dormindo, que poderia fazê-lo depois, pois na hora me parecia tão claro, pouco havia a ser feito. Pois bem, umas duas horas mais tarde, quando estava em minha plena capacidade de raciocínio – acordado – esqueci quase tudo, ou não me lembrei de quase nada, um dilema para minha imbecilidade. Lembro apenas o tema e vou tentar desenvolvê-lo, não sem antes exclamar: BOSTA!

Uél imagine a cena, faça uma pequena abstração: um grupo de crianças brincando, tem entre três e quatro anos. Estão em pleno desenvolvimento, descobrindo, aprendendo, se divertindo, e – a palavra da hora – interagindo; a alegria permeia entre eles.

Tem preto, branco, pardo, ruivo, amarelo, alto, baixo, magro, gordo, um cadeirante, outro com alguma deficiência qualquer.

Neste grupo, há ainda uma ou outra criança que se sentirá estranha no futuro, pois perceberá que sua orientação sexual lhe parecerá errada, isto pouco importa agora.

É um grupo formado por católicos, judeus, muçulmanos, umbandistas, crentes, ateus, a toas. O que eles serão no futuro, neste momento, não é relevante, sequer sabem o que é religião.

Elas correm, riem, pulam. Uma cai, chora, outra o ajuda a levantar, ambas limpam desajeitadamente a roupa que sujou e novamente se põe a brincar. Inventam, compartilham, cantam, tagarelam, sorriem. Um lapso de tempo, um momento livre, de magia, encanto, um registro de pura felicidade.

O que estas crianças têm em comum? Percebe? Acredito que ao abstrair, se é que tenha tentado, nem tenha se dado conta disto. Apenas porque ao “vê-las” brincando é prazeroso, contagiante. Remete-nos a um passado que não mais nos pertence, pois vivemos no mundo onde elas estarão no futuro, e experimentarão o que vivenciamos agora.

Se você não se deu conta, o que elas têm em comum é a ausência de preconceitos. Infelizmente isto será subvertido.

Nascemos assim, livres das influências que nos distinguem. E seríamos felizes se pudéssemos permanecer sem que nos adestrassem.

Sim somos adestrados, não fosse assim viveríamos em paz, as divergências seriam facilmente resolvidas, afinal não haveria competição, todos contribuiriam para satisfação mútua e ouso dizer que viver seria maravilhoso. Ingenuidade da minha parte? Faça a sua abstração.

O que somos e, o que serão as crianças no futuro, não vem impregnado no DNA. A maneira como interagimos hoje com a sociedade, a maneira como as crianças interagirão no futuro, virá através das informações que recebemos, ou seja, de nós mesmos enquanto sociedade.

A informação é boa, nos diz como dividir, ajudar, contribuir, sublimar, relevar, tolerar, unir, agradecer, respeitar. Mas também nos faz segregar, discriminar, desdenhar, ignorar, maltratar, ironizar, matar; e matamos em nome de raça, cor, credo, homofobia, ignorância, ganância, poder.

Guerras em nome de crenças, de raças, de poder, jamais seriam concebidas por crianças, aliás, nenhum tipo de guerra. Na nossa evolução houve um desvio de conduta que nos fez seres abjetos, mesquinhos, gananciosos, e merecedores de outros tantos adjetivos que nos faz discriminar, mentir, destruir e nos tira qualquer noção de civilidade, de cordialidade, de comunidade, de humanidade.

Estes valores, de diferentes culturas, vão adulterando nosso entendimento à medida que crescemos. Ao longo do caminho vamos deixando de lado aquela inocência infantil e uma boa parte de nós irá segregar aviltar, prejudicar, maltratar, destruir.

E faremos isto apenas porque não conseguimos manter aquela pureza que todo ser humano tem ao nascer, e que se mantém em boa parte da infância.

Ao longo da vida deixaremos de valorizar uma simples palavra, respeito. Na sua ausência viveremos infelizes porque nunca estaremos satisfeitos. Já experimentou tentar respeitar?



Reflexões merecem boas trilhas sonoras, hoje extrapolei por você caro leitor. AVA, enjoy!

Simples cidade

Cheiro, é o que é, mas se não aparecer F5, respire fundo.

 

Desde que posso lembrar, cheiros sempre marcaram minha existência. Ouso afirmar ter boa memória olfativa. As lembranças mais remotas que tenho são de criança precoce. Algumas cronologicamente não pertencem a este universo, mas quem regra isto? São oportunidades que se apresentam curiosidades, desejos primitivos. Coisa de e para Freud!

Lembro-me do cheiro inconfundível dos cinamomos em que subia para pegar seus frutos e usá-los como munição em fundas/ bodoques, feitos com os galhos da própria árvore para “guerras” entre amigos, ou treinar pontaria em latas encontradas ao acaso, outros usavam para fins menos nobres. Os cinamomos da minha infância além da diversão davam guarida protegendo-me do verão escaldante nos arredores de onde morava. Escorado em seus galhos, passava tardes sentindo a brisa entre suas folhas e os aromas que ela trazia. O mesmo se dava com as amoreiras, ou ameixeiras – diferente dos cinamomos os frutos destas eram devorados – árvores tão comuns na minha infância, hoje restritas a residências ou cultivadas fora de nosso alcance, para o comércio alimentício.

Lembro cheiros distintos que nunca mais senti, das viandas prontas que buscava para o almoço, do pão de meio quilo vendido em carroças, do leite fornecido em garrafas que eram deixadas na porta do apartamento em que morávamos. Do mandiopã feito pelo meu pai. Da Emulsão Scott, mais conhecida como óleo de fígado de bacalhau (arghs!), ministrado pela minha mãe. Perfumes que gostava na minha adolescência e aqueles que meu pai usava.

Lembro perfumes enjoativos, usados abundantemente por algumas senhoras em seus passeios em ônibus, igrejas, até em funerais. Do sorvete napolitano da Kibon, vendido em embalagens de papelão chamados tijolos. Dos chicletes Ping e Pong de tutti frutti ou hortelã que mascava quase diariamente. Do sabão feito pela minha avó, da oficina do meu avô. Da lenha que vinha trazida por carroças. Dos trens movidos a carvão, que eram tão comuns quando era pequeno. Do peixe salgado pelo meu outro avô, ou do café da manhã com ovos fritos feitos pela minha outra avó.

Cheiros tão velhos quanto eu e que ainda existem. Naftalinas utilizadas para o combate de crianças curiosas, traças e o que mais repelirem. Carros dos anos 40 aos 60, cheiros inconfundíveis para quem os conheceu. Garagens pequenas, com seus cheiros peculiares. Sabonetes consagrados que ainda estão no mercado, embora tenham alterado levemente o seu perfume e a qualidade. O cheiro do cravo em doces, do vinho em quentões. O cheiro da carne assada no espeto. Laquês, acetonas e esmaltes, artigos para embelezamento feminino (ainda que … não, o que penso sobre isto não interessa, mulheres nunca me deram ouvido.). Pipoca, algodão doce, groselhas refrescantes, de flores diversas. Cheiro da chuva, do sol na terra nua.

Ao caminhar pela cidade, nas avenidas principais os cheiros se confundem; poluição de veículos movidos a diesel, restaurantes e seus bufês com sua miscelânea de cheiros, coisas que não consigo identificar. Perfumes diversos, alguns trazem lembranças, outros nem imagino se são importados ou não. Shoppings e seus aromas variados, um bombardeio no olfato. Praças de alimentação, onde o olfato se confunde tamanha mistura de cheiros, decide-se o que comer pelo visual ou pela fome.

No entanto na cidade algo me apraz. São aquelas ruas longe das vias principais, onde caminho rente às paredes, muros, ou grades de ferro e que emanam de seus interiores uma imensa variedade de cheiros, fragmentos de momento.

Incensos dos mais distintos, grama recém-cortada, mofo, cachimbo, perfumes suaves de ambientes domésticos, comida sendo feita, pisos lavados com detergentes, alguém que entra em alguma residência e deixa o rastro de seu perfume no ar ao mesmo tempo em que permite que de dentro do ambiente outros cheiros ganhem o ar saindo de seu interior.

Cheiro de limpeza, mau cheiro, cheiros estranhos, alguns curiosos, indefinidos. Cheiro de quarto de nenês, de livros, cigarro, cheiros comerciais estes mais raros; açougues (quase extintos por causa dos minimercados e supermercados), oficinas, borracharias, salões de beleza, barbearias, tabacarias, botecos e padarias.

Botecos são particularmente interessantes, os cheiros que emanam depende muito do ambiente. Se o proprietário é cuidadoso ou não. Se velhos quase tudo ali detém o tempo. Parece que em seu ambiente, por vezes insalubre, décadas passadas estão ali impregnadas, exceto nos produtos comercializados. Frituras, secos e molhados, cerveja, o ranço de defumados vencidos. Já quando novos tem outro cheiro, o viço do moderno, balcões iluminados, guloseimas, cafés e outros que tais. Creio até que motiva seus donos a querer nos vender mais.

Cheiros que descubro cheiros que nem o tempo pode levar. Um registro do passado, do presente que se acumulam na memória.

Enquanto a rinite não coibir ou o Alzheimer não apagar.

Das coisas que vão fazendo nossas memórias. Agora ela faz parte da minha, quem sabe não fará parte da sua, ouça Ninah Jo. Enjoy!

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